Edição atual
Autor: Niels Søndergaard
O crescimento acelerado da China e os investimentos diretos estrangeiros (IDE) desde a virada do século provocaram diferentes reações internas nos países receptores. Este artigo analisa as representações jornalísticas predominantes sobre os investimentos chineses no Brasil entre 2010 e 2018. Notícias de jornais brasileiros de circulação nacional são examinadas sistematicamente, com foco específico em sua estrutura narrativa, enredos e enquadramento dos investimentos chineses. O artigo identifica as narrativas dominantes relacionadas ao investimento chinês no Brasil e introduz a noção de “interseções narrativas”, formadas quando reportagens combinam narrativas preexistentes no processo de interpretação desse fenômeno. O estudo contribui para aprimorar a compreensão das fontes domésticas da formação de opinião sobre a China no Brasil.
Autor: Diego Sanches Corrêa
Este artigo analisa o processo de diferenciação ideológica das opiniões do eleitorado brasileiro após a emergência política de Jair Bolsonaro em 2018. Como resultado da polarização política entre as elites, eleitores foram estimulados a se identificarem ideologicamente e a adotarem opiniões consistentes com sua autoidentificação. Para demonstrar o fenômeno, foram analisados dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) de 2014, 2018 e 2022. Esses dados mostram que divergências ideológicas em relação a dois temas politicamente sensíveis, as cotas raciais e a lisura do processo eleitoral, só se tornaram significantes após alcançarem grande visibilidade pública, motivada por declarações de Jair Bolsonaro e das novas elites da direita. Fenômeno similar pode ter ocorrido com diversos temas culturais e econômicos, de acordo com evidências do survey de 2022. Esses achados sugerem que o significado de rótulos ideológicos é fluido e objeto de contínua reelaboração social.
Autores: Viviane Santa Rosa e Mehmet Ali Üzelgün
As mídias digitais estão sendo utilizadas por movimentos sociais como ferramenta de ação política. No Brasil, o Fridays for Future (FFF) recorreu às affordances do Instagram para reconstruir as práticas do Norte Global, já que as greves climáticas não foram bem-sucedidas no país. Este artigo propõe uma tipologia para as ações contenciosas adotadas pelo FFF-Brasil. Investigamos 177 postagens, entre junho de 2020 e abril de 2022, não relacionadas às greves. Com base na análise de conteúdo e na teoria dos atos pragmáticos, capaz de investigar a linguagem a partir dos efeitos que se pretende imprimir no interlocutor, mostramos que as ações predominantes são aquelas que nomeamos de Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP). Compreendemos que esse formato foi empregado para realizar denúncias e reivindicações online, sem, no entanto, ter como objetivo principal provocar opositores, mas sim conquistar apoiadores e representatividade.
Autores: Ana Karine Pereira, Gustavo Apollo, Yasmin Oliveira Targino, Luiza de Moraes Tavares de Lima, Mariana Mota, Wallace Lopes e Daniela Rosim
Quais são as principais políticas ambientais e climáticas do governo Lula III? Elas resultaram na reconstrução das capacidades estatais? E como a política influencia esse processo? Com base em documentos, entrevistas, dados orçamentários e de pessoal, o artigo identifica 23 políticas e programas, com ênfase em mudanças climáticas e povos e florestas, e esforços de recomposição e inovação. Há avanços institucionais, participativos e orçamentários, mas persistem déficits, como falta de servidores, evasão, infraestrutura precária e frustrações na carreira. A política condiciona essas capacidades estatais, com resistências no Congresso, tensões na coalizão governamental e pressões do agronegócio. A reconstrução é substancial e está em curso, mas sua consolidação exige articulação técnica, política e social.
Autores: Marcelo Santos, Nadia Herrada Hidalgo e Arturo Figueroa-Bustos
Esta pesquisa analisa os links compartilhados em um grupo público de patriotas no WhatsApp durante a revolta social chilena de 2019. Aplicando análise de conteúdo avaliamos a qualidade e a credibilidade das fontes compartilhadas no grupo. Os achados revelam: 1) prevalência da visão subjetiva dos acontecimentos; 2) prevalência de canais de nicho e perfis pessoais no YouTube com temas específicos; 3) visões críticas sobre migração, políticos e protestos; e 4) abundância de informação de segunda mão descontextualizada e links quebrados. Discutimos as limitações e implicações dos resultados para as sociedades democráticas.
Autores: Martín Couto, Mar Griera e Felipe Arocena
Este artigo analisa as atitudes em relação ao aborto na América do Sul diante de mudanças legais aceleradas e disputas morais. Entre 2012 e 2022, seis países flexibilizaram seus marcos normativos. Em diálogo crítico com as teorias da modernização e suas tensões na região, avaliamos se essas reformas foram acompanhadas por transformações atitudinais. Com dados da World Values Survey (ondas 5–7), constatamos alta penalização social e notável estabilidade das atitudes. A religiosidade, a idade e a importância da política emergem como fatores-chave. Os achados apontam para uma modernização cultural parcial e não linear, compatível com religiosidades persistentes, desigualdades estruturais e clivagens morais duradouras.
